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Os Super Tucanos colombianos contra as FARC

 

O EMBRAER A-29B foi a aeronave determinante para o processo de paz na Colômbia contra a guerrilha e que deu a sua Força Aérea experiência nos combates contra insurgência em teatros de selva.

 

Quando o nosso país vizinho, a Colômbia, legaliza a situação com as Forças Armadas Revolucionárias e também participa das operações Green Flag em conjunto com a USAF (Força Aérea Norte americana), descrevemos as operações do Super Tucano no Esquadrão de Combate 211 ‘Grifos’ que sofreu redução do número de voos. O esquadrão colombiano é o maior e o que possui o maior nível de prontidão entre os outros esquadrões daquela força aérea da América do Sul.
A história dos movimentos de guerrilha regional na Colômbia começou com a luta de camponeses de 1920 a 1930. A política e estratégias destas organizações foram baseadas no socialismo e comunismo e continua até 1964 quando o membro do Partido Comunista da Colômbia (PCC), Manuel Marulanda juntou-se as Forças com Jacobo Arenas para formar as FARC ou Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia.
Desde 1964 as Força Aérea Colombiana (FAC) continuou a dar apoio ao Exército pelo ar em operações contra as FARC e em 2007 recebeu seus primeiros 25 EMBRAER A-29B Super Tucano – aeronave de ataque leve e treinamento produzido no Brasil, que colaboraria para o fim das FARC naquele país.

 

A precisão da aeronave

A base aérea denominada posteriormente por Capitán Luis Fernando Gómes Niño, também conhecida como Base Aérea de Apiay está localizada há 88km a sudoeste da capital, Bogotá. Apiay é o lar do Grupo de Caça 21. A base também é lar do Escuadrón de Combate 211, que inclui dois outros esquadrões: O Escuadrón de Combate 212 que opera os EMBRAER AT-27 Tucano, o Escuadrón de Combate Táctico 213 com uma frota mista de Schweizer SA2-37B, Cessna 208 Gran Caravan, Douglas AC-47T Fantasma, Sikorsky AH-60L Arpia III (Blackhawk configurado para ataque ao solo) e o UH-60 Angel para busca e resgate em combate (CSAR).
O  A-29B Super Tucano é a aeronave primordial do Escuadrón de Combate 211 para operações táticas e de precisão. Isto reflete o conceito adotado pela FAC com a adoção dessa arma de precisão em 2007.
O comandante do Escuadrón 211 é o Capitão Monsalve Montoya Juan Esteban com nick de rádio ‘Minos’. O capitão está apto a explicar como o Super Tucano causou um grande impacto contra as operações das FARC.
As informações sobre operações internas de inteligência na Colômbia são confusas. As áreas alvo podem ser dentro de florestas fechadas ou no interior de cavernas nas montanhas. O A-29B nos dá a habilidade de “entregar armas” tendo coordenadas e tendo a certeza de que todo ataque será preciso.
O A-29B Super Tucano é empregado em conflitos internos, interoperacionalidades, treinamento para conflitos regulares e irregulares e treinamento avançado.
A tecnologia embarcada no A-29B permite aos pilotos completar seu treinamento e estar apto para voar aeronaves de alto desempenho como o caça Kfir. Desde o começo das conversações de paz com as FARC a FAC pausou as operações aéreas contra a guerrilha tendo a fiscalização das Nações Unidas no cessar fogo.
Os A-29B estão divididos em dois esquadrões. O Escuadrón de Combate 211 que possui um efetivo de 17 aeronaves divididos em dois destacamentos o de Tres Esquinas e Yopal. A outra unidade, o Escuadrón de Combate 312 opera sete aeronaves em Barranquilha com outra base de operações em Cali.
Para ser de um esquadrão de combate o piloto deve estar altamente motivado, e segundo os comandantes, o piloto deve ser bem treinado e ter bons princípios. O foco em seus objetivos é claro e ele ou ela devem trabalhar em grupo e ampliar suas experiências para servir a nação, diz as diretrizes da FAC.
O objetivo geral é preparar o esquadrão para a guerra irregular que são os conflitos dentro da Colômbia, bem como a guerra regular, o que teve como grande foco as operações contra as FARC.
Desde 2007 a FAC voou mais de 150 missões por ano contra as FARC, mas também ajudou no processo de paz entre o governo e a guerrilha. A redução no número de missões contra as FARC deu a FAC a oportunidade de entender como poderiam otimizar o nível de seus pilotos nas operações com os A-29B para diferentes crises que viessem a acontecer.
A FAC voa mais missões de suporte a combate, sortidas de treinamento e CSAR mantendo a disponibilidade durante todo o ano. Antes do cessar fogo, o A-29B era carregado com armamento específico, pronto para decolar em momentos decisivos no conflito. Hoje as unidades que equipam a aeronave não permanecem com armamentos de bombardeio, enquanto o processo de paz continua no país.

 

Missões estrangeiras

Os esquadrões de A-29B da Força Aérea Colombiana têm se exercitado com operações em conjunto com a Força Aérea dos Estados Unidos que faz parte da Equipe de Treinamento Móvel (MTT). O MTT tem ajudado a FAC a escrever doutrinas e mostrou uma nova maneira de operar com as aeronaves e inovar nas missões  conjuntas com outros países e aeronaves diferentes.
Uma destas oportunidades aconteceu na Maple Flag 46 em 2013, durante o exercício com o A-29B, onde foi lhe dada a tarefa de cumprir missões táticas de ataque ao solo (SAT). Em 2015, participaram também nos exercícios ‘Angel Thunder’.
Esses exercícios foram principalmente de missões CSAR e operados pela USAF com os A-10 Thunderbolt II e seu pilotos dando instruções aos pilotos colombianos.
A FAC recentemente sentiu a necessidade de se alinhar com procedimentos padrão da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). As participações em exercícios estrangeiros podem ajudar no desenvolvimento e entendimento de procedimentos e chegar a níveis elevados de profissionalismo.
Enquanto a FAC possui uma grande experiência interna operacional, decidiu realizar mais exercícios internacionais para fazer parte de operações multinacionais conjuntas. Isso inclui aprender com os norte-americanos em exercícios operacionais. A antiga aeronave de ataque leve OV-10 Bronco foi inicialmente destacada para participar do exercício ‘Angel Thunder’, mas sofreu com problemas de suporte e manutenção e foi retirada da lista e decidiu-se destacar os A-29B que tem performance similar ao Bronco.
O esquadrão teve somente seis semanas para preparar-se e estar pronto para os exercícios. O pessoal do esquadrão de OV-10 Bronco ajudou a equipe dos A-29B através da experiência obtida na antiga aeronave de ataque de fabricação americana. Alguns de seus pilotos, inclusive, juntaram-se ao esquadrão dos Super Tucanos. O principal desafio era todos seguirem as mesmas normas começando pelo aprendizado do inglês, deixando claro para os pilotos os códigos dos mapas indicados na parede.
Em agosto deste ano o esquadrão participou das operações ‘Green Flag East’ na Base aérea de Barksdale em Louisiana nos EUA. O Capitão Montoya disse: ‘Voamos missões SAT, mas o mais importante foi cumprir missões CSAR, pois estes exercícios têm mais aspectos de aprendizagem para os pilotos como comando de missão, escolta e resgate (RESCORT). Estas são novas missões para nós’. Estes exercícios não irão beneficiar somente os pilotos de A-29B, mas também o restante dos esquadrões, uma vez que voltamos para a Colômbia passamos essa experiência para outros esquadrões de ataque leve da FAC, como os Cessna AO-37B e AH-60L.

 

Os pilotos de A-29B

O Capitão Rommel Rodriguez é um instrutor de A-29B e membro da equipe acrobática que emprega a mesma aeronave, com muitas horas de voo e experiência em combate. Ele nos informa que a instrução básica é feita pelo Beechcraft T-34 ou Cessna T-41. Então os estudantes são transferidos para os AT-27 Tucano ou Cessna T-37 ao que irão receber suas asas (sua graduação). Se progredirem para o A-29B estarão aptos a pilotar a aeronave em seis ou oito meses. Atualmente um total de 100 pilotos se preparam para receber a graduação e poderem, finalmente, comandar o Super Tucano na Colômbia até o fim de 2016.
A FAC tem como meta implantar uma escola de combate para pilotos. Significa que depois que o piloto se formar poderá ingressar nesse curso que terá instrutores de AT-27 e A-29B. Uma vez concluído o treinamento, o piloto pode ingressar de pronto em um esquadrão de combate.
Conforme informa o Capitão Rodriguez, a base de uma operação bem-sucedida está na inteligência. Segundo ele, se não tem bom intelecto e estudo do inimigo os pilotos não estão aptos a conduzir uma boa operação. Nas selvas da Colômbia as árvores têm mais de 30 metros de altura o que dificultava encontrar células das FARC. Isso somente era possível com câmeras FLIR de visão infravermelha. Muitas vezes eram necessárias informações precisas para obter coordenadas computadorizadas de mira do alvo (CCIP). Em vários momentos as aeronaves A-29B da FAC guiaram tropas do exército para atacar as posições da guerrilha, assim como manter amigos a salvo. Estas operações são semelhantes às de Controle de Ataque Conjunto ou JTAC, entretanto o exército Colombiano prioriza outras doutrinas no modo de ataque.
Em toda missão de ataque, o pacote de inteligência planejado pelos comandantes da FAC e os juristas revisam as normas e leis dos direitos humanos. Depois, as informações vão para o esquadrão, sendo inseridas nos sistemas dos computadores das aeronaves envolvidas na missão.
Após retornar para a base o piloto faz seu briefing da missão para os comandantes. Na maioria dos casos as tropas em solo rumam para a área do alvo atingido, detalhando informações de volta ao esquadrão. Desta forma a unidade pode verificar os danos ao alvo de acordo com as informações fornecidas pela inteligência no briefing.
Terroristas tipicamente preferem se esconder nas montanhas e imediações onde dificultam as operações com as aeronaves. O piloto é forçado a voar a grandes altitudes e configuração pesada. Três montanhas circundam a cidade de Apiay e em adição as condições climáticas próximas a estes lugares pode mudar rapidamente, dificultando ainda mais as missões aéreas. Os pilotos contam com suas experiências para determinar se devem continuar as missões.

 

Contra traficantes

Outra tarefa atribuída ao A-29B é o combate ao narcotráfico. A Força Aérea Colombiana sempre tem o Super Tucano de prontidão para estas missões, apesar de também estarem disponíveis os A-37 Dragonfly na região norte do país.
O capitão Rommel recorda uma sortida quando foi despachado para Cali em chamado de alerta de reação rápida. Depois da chamada para lançamento, o capitão alça voo em 20 minutos durante o dia ou em 30 minutos durante a noite. Foi designado para voar sobre o Oceano Pacífico para interceptar um Cessna que tinha a bordo dois mexicanos transportando drogas. A aeronave alvo carregava dois grandes cilindros de combustível no assento traseiro para expandir o alcance do Cessna. O capitão assumiu a interceptação dos controladores de tráfego e forçou o pequeno avião a pousar num campo de voo próximo à costa onde policiais o esperavam.
A interceptação segue padrões estabelecidos, mas a FAC obedece a protocolos das Nações Unidas. Alguns procedimentos são chamados ‘ar, ponte e negar’ (ABD). A FAC cumpre três passos a seguir: o primeiro é posicionar a nossa aeronave ao lado do cockpit da aeronave interceptada e chamar a atenção do piloto. Falar no idioma inglês e espanhol numa frequência de emergência, em ambas as frequências VHF e UHF, além da frequência de tráfego aéreo da área. Caso não obtenha resposta no primeiro passo passa-se para o segundo, em que será necessário a liberação do Comando da Força Aérea Colombiana (COFAC). A guarnição de interceptação está sempre em contato com o comando da Força Aérea e que decide se poderá disparar tiros de advertência com o canhão calibre .50 do Super Tucano, para mostrar que a aeronave clandestina deve pousar imediatamente. Se a aeronave ainda não responder é comunicado a COFAC e é pedida a permissão para abatê-la com o canhão, esse é o terceiro e último passo.
Agora que os voos clandestinos são menos intensos, o esquadrão está atualmente planejando uma equipe de quatro aeronaves A-29B para estabelecer um esquadrão acrobático.
A cada dois anos a FAC realiza apresentações na Feira Aeronáutica Internacional Rionegro ou F-Air, onde os pilotos demonstram suas capacidades com seus aviões em público e este evento seria ideal para os shows aéreos com os Super Tucanos.
Um número de pilotos de A-29B visitou o esquadrão acrobático da Força Aérea Chilena para discutir sobre a implantação da logística da equipe.
A ideia é bem recebida no comando da FAC e está em estudo para compra e operação de mais aeronaves.

 

A modernização

O capitão Monsalve Montoya só tem elogios a fazer para o A-29B Super Tucano da EMBRAER e espera por futuras modernizações. Em seu comentário diz que a aeronave “é muito confiável”. “Quando fomos para a ‘Angel Thunder’ escalamos 4 aviões, 10 técnicos e um pallet de equipamentos”, disse Montoya. Foi instalado um Gravador de Dados do Voo (FDR) em cada Super Tucano, esse sistema é utilizado internacionalmente para registro das missões e análise posterior. Apesar de resultar num grande volume de dados produzidos, isso não significa que haja problemas a serem resolvidos.
Em dezembro o A-29B completará 10 anos de operações na Força Aérea Colombiana que nesse período adquiriu muita experiência com a aeronave de fabricação brasileira. O capitão Montoya diz que quando se tem uma questão, pode-se resolver o problema e decidir por prosseguir com a missão ou não usando o sistema da aeronave. Disse também que têm três sugestões para melhorar as capacidades do A-29B, as quais estão planejando com os comandantes.
O primeiro pedido é para a melhoria do equipamento de segurança nas operações aéreas com ênfase na consciência situacional do piloto. O datalink pode sofrer melhorias em função do sistema usado pela FAC, o que permitiria situações de suporte mútuo e sempre dispor de condição visual com um ala, já que acreditam que se tiver a visão de mais de um piloto têm-se uma imagem mais abrangente para o grupo.
O segundo pedido abrange o sistema de vigilância instalado, ao qual não teve os detalhes divulgados.
O terceiro trata do armamento que pode ser transportado; há expectativas de serem incorporados mísseis de designação infravermelha.
A sobrevivência da tripulação da aeronave é assegurada por proteção blindada com itens no estado-da-arte e que possui sistema de alerta de radar e aproximação de míssil, em adição a instalação de dispensadores chaff e flare.
Em termos de armamento o A-29B colombiano possue dois canhões .50 polegadas instalados nas asas com 250 projeteis disponíveis para cada um, 14 foguetes de 2.75 pol., bombas Mk81 e Mk82 e bombas BDU-33 para treinamento. O Super Tucano também pode ter instalado uma torreta eletro-óptico/infravermelho e Sistema FLIR Bright Star DP. A aeronave não possui equipamentos para designação de alvos, já que a FAC não opera bombas guiadas à laser. Entretanto o sistema CCIP provém precisão de 1 a 10m no alvo.
O Super Tucano está ajudando a construir a reputação da FAC e será lembrado no futuro por sua contribuição para alcançarem o processo de paz junto as FARC. Este ponto final é ecoado com palavras do capt. Rommel que diz que a diferença foi feita com a atuação do A-29B. “Nós mudamos o caminho da guerra com o inimigo e isso é porque conseguimos os resultados no processo de paz”.

 

Hercules de Araujo

 

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As missões cumpridas com o Super Tucano

Muitos detalhes das missões contra as FARC continuam em segredo, mas o pouco que foi divulgado mantém o anonimato dos pilotos envolvidos.
A primeira missão descreve um plano para capturar um líder das FARC fora de um esconderijo. A área de operação é a selva de Chocó, onde forças especiais estavam continuamente observando o líder por três semanas. O piloto número 1 disse:

“O princípio atrás de toda missão é como ela é planejada, como você investiga o inimigo e como você fica sabendo de suas rotinas de vida. Tínhamos como base um campo de voo chamado Palanquero num esquadrão com três aviões com tempo normalmente ruim com nuvens baixas. Estas missões eram envoltas em alta prioridade e os homens de Operações Especiais estavam em campana a 100 metros do esconderijo do líder das FARC, e com o inimigo equipado com armamento pesado. Não havia civis na área o que já havia sido determinado nas informações da inteligência no pré-ataque. A missão havia planejado despejar três bombas ao redor do esconderijo sem provocar destruição ou gerar pânico às pessoas na localidade. Aqueles que estavam no interior da edificação, forçosamente, deveriam sair em direção a um rio próximo onde o pessoal de Operações Especiais teria a chance de capturar guerrilheiros estabelecidos pela inteligência. Com estas missões provamos que não é necessário destruir edificações para se chegar ao êxito das missões a nós estabelecidas”.